quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Castelos de areia

Eu estou com raiva. Frustrada. Aborrecida porque minha cabeça louca ouve este coração estúpido e cria expectativas irreais, baseadas em suposições. Castelos de areia.
Estou cansada, trabalhei muito, preocupada com a responsabilidade que assumi junto aos demais. Mas a alma está muito mais que cansada. Está velha. Não consigo acreditar que vou encontrar alguém e vou ser amada. Não consigo acreditar que exista alguém que vai entender a minha loucura, quando nem eu mesma entendo. Porque quem eu acho que entende a loucura, não se importa.
Só queria que a noite trouxesse a maré alta, destruisse todos esses insanos castelos de areia enquanto eu estiver dormindo e que pela manhã, eu caminhe sobre terra firme.

Visita no plantao

A Morte visitou o plantao esta noite. Como uma amiga que vem trazer o descanso depois de uma batalha dificil. Sem escandalos. Simplesmente uma pessoa amada que partiu e deixou quem a amava para tras, mas sem revolta. Que a minha hora possa ser assim: com desprendimento e com serenidade. Mas que a minha hora nao chegue antes que eu ame e me sinta amada de verdade.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Rede de proteção

Todo trapezista que tem medo de morrer tem sua rede de proteção. Colocamos rede de proteção nas janelas para segurança das crianças. Eu aprendi a criar minha própria rede de proteção.
Por mais que a família seja feita para te amparar, pode não estar disponível exatamente no momento em que você precisa, por algum motivo. O caminhão de mudanças pode ter chegado antes do dia...

Eu morava em uma república com mais três meninas que estudaram comigo no colégio. O nome da república? Monarquia. E obviamente nós éramos as princesas, com direito a coroa e cerimônia de sagração de cavaleiro toda vez que uma arrumava namorado.
A Monarquia foi minha primeira rede de proteção.
Foi Cinderela que me encontrou na rodoviária de Juiz de Fora quando fui pro vestibular. Ela estava no churrasco de comemoração da minha reprovação na Unicamp. Ela estava comigo na hora do atropelamento. Foi pra ela que expliquei que a carteirinha do convênio estava na primeira gaveta da cômoda do nosso quarto. Foi ela que ligou pra minha mãe, contando do atropelamento. E embora a vida tenha nos afastado, hoje ela mora em outra cidade e pouco nos falamos, Cinderela foi uma irmã que a vida me deu. Foi a primeira a segurar uma das pontas da rede de proteção. Rapunzel me ensinou a cozinhar. Bela ficou conosco pouco tempo, logo depois veio Ariel.

Depois da faculdade, na residência, a rede mudou, outras pessoas seguraram as quatro pontas.
Já casada, mesmo na minha arrogância de acreditar que eu tinha uma família que iria sempre me amparar, a vida me mandou mais uma irmã (Nandaaaaaa!) e me fez reencontrar outra.
Quando a casa caiu e eu fui ao chão, doeu muito, porque eu mesma tinha me afastado da proteção da rede. E outra rede foi construída. Está sendo construída.

Os melhores amigos são a família que você escolhe ter. São a melhor rede de proteção que existe.
E como são quatro as pontas da rede, são necessários pelo menos quatro para segurá-la.
Meus quatro cavaleiros do Apocalipse!
O que seria de mim sem vocês...
Mas tem dias que ainda me acho meio Branca de Neve, entalada com a maçã envenenada que o dia trouxe, fria, no fundo uma ponta de esperança pelo Principe Encantado, mas tudo o que eu vejo são anões.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O limiar de dor

Cada um de nós responde a um estímulo doloroso de acordo com nossas experiências prévias, geralmente da infância. Comparamos a dor atual com um processo qualquer guardado na memória e a classificamos como dor leve, mais ou menos, tá doendo muito ou puta que pariu, que dor é essa!
As vezes ter uma memória de elefante atrapalha um pouco a vida. Esta é uma memória que eu trabalhei bastante pra bloquear, mas que sempre assombra a minha vida.
Tudo bem, eu não estava lá muito sóbria. Era final do semestre, atrasado por causa das infinitas greves. Estávamos voltando do show de uma banda baiana qualquer: Cheiro de Amor, Banda Eva, Banda Beijo, qualquer coisa assim. Passei em casa, tomei banho, mais ou menos tomei café e subi pro campus pra ver se eu estava de prova final (a recuperação da faculdade). Nesta época, eu já tinha explicado aos meus pais que "time bom vai pra final". Eu não era uma aluna aplicada, não fazia jus ao "cu-de-ferro" dos cdf, porque era impossível eu ficar sentada na cadeira muitas horas, estudando. Ainda é. Então, virava e mexia, estava eu de prova final.
Estávamos em muitos, não me lembro exatamente em quantos, atravessando do ICHL para a biblioteca, para pegar o busão do outro lado da rua. Eu já estava quase na calçada. O carro cortou o onibus e ia fazer um strike nos que ainda estavam atravessando, então desviou pra cima da calçada. Eu alí. Só eu. Com um pezinho levantado pra por na calçada e ainda em torpor alcoólico para ter reflexo pra pular.
Eu já tinha quebrado a perna quando criança. Mas nada, nada, serviu de referência para aquela dor. Quebrei a clavícula e o quadril no impacto com o carro, me senti rolando no ar e cai com o queixo no meio-fio. Fratura exposta. Mas eu não desmaiei. Aquela dor enorme, em ondas, todo aquele sangue quente escorrendo pela boca, pelo pescoço, eu não entendia o que tinha acontecido direito. Talquinho, um dos meninos da minha turma, colocou alguma coisa na minha boca: "segura, mas não engole. Nós vamos te tirar daqui e vai ficar tudo bem". Tirou a camisa branca, enrolou ao redor do meu pescoço e me colocaram dentro do carro.
O campus é longe da cidade. A cada solavanco, eu apagava, acordava, perguntava: "Talquinho, o que foi que aconteceu?" E desmaiava sufocada no próprio sangue antes de conseguir ouvir a resposta. Depois de algumas vezes, ele me olhava chorando e só pedia para eu parar de falar.
Paramos num PS da prefeitura antes de chegar ao hospital. A camisa no meu pescoço estava preta, encharcada de sangue. Acho que tomei alguns pontos, três acessos periféricos e muito soro e dali até a Santa Casa já era pertinho.
As meninas que moravam comigo já estavam na porta da Santa Casa, a equipe do Trauma, da Bucomaxilo, todo mundo me esperando.
Eu ainda soltei uma última pérola: olha, não mexo o braço, fiz lesão de plexo braquial! Igual no livro!
Depois me deram alguma coisa bem gostosa e quentinha, um soninho tão bom, tão bom, uma moleza, depois ficou frio. Eu não quero morrer. Acorda, acorda, respira, ainda tem muita coisa pra acontecer na vida. Abri os olhos. Alguém conversava comigo. O anestesista. Olha, não tem como te intubar por causa da fratura, só abre a boca só um pouquinho e me dá esse ossinho que seus amigos guardaram aí. Eles foram ótimos. Agora vai dar tudo certo. Sou eu que vou te por pra dormir, mas quando você acordar, você vai ter uma traqueo, tá?
Traqueo? Traqueo? O que será uma traqueo? Sou caloura, não aprendi isso ainda. Mas aí eu só pensava, já não falava mais nada. O frio era muito ruim e eu não queria morrer.
Acordei na manhã seguinte, com a minha mãe chorando na minha frente. Eu estava viva. Nada mais importava. Nada mais ia doer tanto.

Resiliência

Resiliência é a arte de tomar porrada da vida e continuar de pé. Com um tempo, até com um sorrisinho.
Como se não bastasse eu ter sido o "Macaulay Culkin" da casa (pior, porque no filme Esqueceram de Mim, ele pelo menos estava dentro da própria casa, eu estava na rua), meu pai ainda resolveu dar um churrasco comemorativo da minha reprovação na Unicamp.
Como tinha sido "divertido" este ano na minha vida: mamãe tinha capotado o carro comigo,  uma colega da escola morta num acidente de carro, o namoradinho do cursinho morto em outro acidente de carro, eu tinha sido assaltada, ficado sem dinheiro numa cidade estranha e abandonada pela família. Pelo menos, na minha cabeça de adolescente, dramática, tinha sido assim... E eu nem tinha feito 18 ainda!
A vantagem de morar na praia é que sempre tem uma pedra alta para você sentar e ficar olhando o horizonte, lambendo as próprias feridas.
Eu podia fazer cursinho pra prestar Unicamp de novo ou simplesmente podia entrar na Federal de Juiz de Fora. Fui comodista: JF era mais "perto" (9 horas de busão, mas ainda assim mais perto), eu não ia perder um ano da minha vida (ou dois, ou três) até passar no vestibular. Também não sei porque eu, mineira, tinha encrencado com a Unicamp. Ia ser duro voltar pra Campinas. E o golpe de misericórdia na minha auto-estima: Dodô tinha passado na Unicamp!
Juiz de Fora, aí vamos nós!
Mal sabia eu que meu teste de resiliência ainda estava por vir. Fui atropelada no primeiro ano de faculdade. Eu, com todo o meu peso pena de 39 quilos contra um opalão velho em alta velocidade, dentro do campus da UFJF.
Eu sou resiliente mesmo. Tô aqui pra contar. Com o sorrisinho e tudo.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Homeless

Pense numa época sem celular, sem internet e muito menos, celular com internet.
Eu obviamente sabia que meus pais iriam se mudar. Meu pai tinha se aposentado, nas férias do meio do ano tínhamos ido pra praia escolher o apartamento, já tinham rolado várias piadinhas: "e aí, com ou sem quarto pra Diana? Sem, ela vai abandonar a gente, vai pra faculdade, hahaha"...
Parecia que eu estava metaforicamente abandonando todos na terra prestes a ser inundada e fugindo na Arca de Noé. Vai ver foi por isso que o inverso doeu tanto.
Eu nunca cheguei a empacotar as minhas coisas. Meu quarto de adolescente verde, que eu odeio rosa. Meus poucos CDs e muitos LPs. Meu LP preferido, New Jersey, do Bon Jovi!
Quando eu saí de Juiz de Fora, não consegui falar com meus pais pra confirmar. O que era comum, ninguem ficava muito em casa, com o calor que fazia, estavam na piscina ou no clube, com certeza. Mas tudo já tinha sido metodicamente combinado entre o engenheiro e a filha do engenheiro.
Então peguei o busão em Juiz de Fora e fui pra casa. Cheguei de manhã na rodoviária e achei estranhíssimo meu pai não estar lá me esperando, mas o ônibus tinha chegado adiantado (e olha que nem era o Cometão...). Achei melhor ir pra casa.
Tão quieta a minha casa. Ninguém atendeu a campainha. Eu já estava muito velha para me pendurar no pinheiro e entrar pela janela do meu quarto, no segundo andar, como fazia quando era criança. Fiquei olhando, apertando histericamente a campainha, até cansar e sentar no meio-fio da rua.
É claro que eu sabia que eles não estavam ali. Eu só não conseguia acreditar que tinha sido largada para trás. Eram os meus pais, a minha família, o meu lar. Eu estava literalmente na sarjeta, sentada nela, chorando, chorando, chorando, chorando, deixando passar todo o sofrimento do último ano.
O vizinho me encontrou lá pelas 9 da manhã. Eu tinha chegado antes das seis. O caminhão de mudanças tinha aparecido tres dias antes do combinado e a mudança tinha saído na véspera. Meu pai tinha deixado uma muda de roupa, dinheiro e a passagem pra praia.
Pra melhorar, no apartamento novo, eu não tinha quarto. Levei uma semana pra voltar a falar com meus pais. Quando falei, eles descobriram que eu sabia xingar...

Vestibular

Passei superbem na 1a etapa da Unicamp. Liguei para os meus pais e avisei que começaria a peregrinação das etapas: BH, Campinas, depois Juiz de Fora e finalmente de volta ao lar, depois de 3 meses fora.
Consegui ser assaltada na parada do Cometa em Pouso Alegre. Um pivete levou minha mochila com vários livrinhos do Anglo e minha carteira. A sorte é que minha identidade estava no bolso da calça.
Cheguei à rodoviária de Juiz de Fora, onde nunca tinha ido antes, ainda bem que uma das minhas amigas da terrinha natal tinha ido me buscar lá. Eu não tinha dinheiro pra nada e só sabia chorar. Ela resolveu tudo. Fomos pro apartamento da galera, ela ligou pro meu pai, ele depositou dinheiro na conta dela, eu fiquei feliz de novo. Aliás, bem felizinha, porque tinha saído a pontuação da Unicamp, eu jurava que tinha entrado e, pela primeira vez na vida, enchi a lata. Pra quem conhece, em pleno calçadão da rua Halfeld, no falecido "Filhos da Fruta"...
Talvez seja este o segredo do vestibular: não adianta ir estressado, só vai servir pra te dar um branco. Na manhã seguinte, na hora da prova, eu estava num estado zen-budista de nirvana absoluto.
Eu SÓ passei em Juiz de Fora. Tomei um ferro fenomenal em Física na 2a fase da UNICAMP. Até fiz pontos mais que suficientes pra passar, mas tinha a porcaria do escore na época... Passei mal em uma das fases da UFMG, terminei a prova no "Ambulatório". Quando voltei pra casa das meninas (minhas amigas da cidade natal, que tinham ido fazer cursinho lá), o "tio" de uma delas (2 anos mais velho que a gente), calouro da Medicina, foi me acudir.
Assim fica parecendo que eu não perdoava ninguém, o que seria uma total inverdade. Meu músculo estúpido continuava estúpido e a mágoa do amor platônico por Odorico ainda era mais forte que as lembranças de Romeo. E, em minha defesa, eu achava que Angelo tinha me abandonado por causa da mãe dele.
Namoramos alguns poucos meses, meio à distância, graças à peripécia da mudança dos meus pais.
Ah, mas tal peripécia requer um capítulo á parte!

Fora da redoma

Só em novela que a heroína tem um arroubo de coragem, uma imensa vontade de mudar o mundo e dá tudo certo. Comigo deu tudo errado.
Primeiro, eu não tinha dezoito anos. Embarcar na rodoviária da minha cidade pra Belzonte foi fácil. Mas pegar o busão interestadual de Belzonte para Campinas, sem autorização dos pais, eram outros quinhentos... Eu tinha umas seis horas para dar um jeito...
Meu pai tinha se fingido de morto com toda a minha movimentação de ir pra Campinas e "casualmente" estava viajando a trabalho no final de semana da minha partida. Não tinha telefone celular naquela época (um viva à coleira eletrônica moderna!). Minha mãe ficou em casa com minha irmã e eu fui...
Em algum momento, não sei exatamente quantas horas eu fiquei sentada num degrauzinho perto do embarque da "Cometa", meu pai apareceu. Puto. Puto. Comprou a passagem dele e entrou comigo no onibus.
_Voce vai morar aonde?
_Não sei...
_ Vai gastar quanto?
_ Não sei...
_ Vai se sustentar como?
Aí, com meu sorriso mais dentuço, mostrei o cartão de crédito da mamãe...
Escapei do sermão por intermédio de Morfeu. Eu estava tão cansada que dormi no Cometão e acordei em Campinas.

Chegar ao Anglo foi um choque. Cabeçuda, eu? Ali havia centenas, centenas, de pessoas tão ou mais cdf do que eu. A bem da verdade, vamos mandar a modéstia às favas: eu não sou cdf. Eu não tenho persistência pra isso. Senão, agora mesmo, estaria terminando de escrever a tese de doutorado... Eu tenho uma puta memória, que na época estava no auge. Agora já tá dando ferrugem, mas ainda assim, dá pro gasto. E minha memória, contra centenas de pessoas com uma memória tão boa quanto e esforçados, não ia prestar mesmo.
Dois anjinhos apareceram na minha vida, antes que eu me suicidasse de decepção com o mundo fora da redoma de vidro: Angela e Angelo.
Angela era a menina que dividia o quarto comigo na pensão. Quase tão louca quanto eu. talvez mais... Um pouco mais velha, tinha começado a faculdade de Medicina no Nordeste, tinha trancado pra fazer cursinho e tentar a Unicamp. Superesforçada. Me ensinou o valor do esforço (só de olhá-la estudando eu já me cansava).
Angelo era um dos meninos da minha turma de cursinho. Também um pouco mais velho. Já trabalhava, nem lembro mais no que. Sempre chegava com fome no cursinho e às vezes íamos juntos pra cantina. Eu sempre morrendo de frio e ranhetando quando tinha neblina. Algumas semanas depois, ele já queria me apresentar pra mãe dele em Valinhos! E nenhum dos dois estudava quanto devia...
Mas um dia a mãe dele me ligou, disse que sentia muito, mas que era para eu estudar por nós dois. Na época, eu não entendi, achei que ela estava proibindo o namoro. Ela só me contou depois do vestibular.
Eu nunca cheguei a conhecer a mãe do Angelo. Numa noite de neblina, ele saiu de carro do cursinho e nunca chegou a Valinhos.
Eu não gosto de neblina.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Carrofobia

Quando eu ainda morava em Minas, minha mãe capotou o carro comigo, indo me levar para fazer exame. Detalhe, Rx para ver a coluna (controle da escoliose), eu tinha tomado uns 4 comprimidos de Lactopurga, para que houvesse um "esvaziamento intestinal para melhor visualização da coluna lombossacra". Não adiantou nada. O medo foi tamanho, que não passou nem um pum, quanto mais um esvaziamento completo...
Mas acidentes acontecem. O que acontece uma vez pode nunca mais acontecer de novo. Acho que li isso num Paulo Coelho da adolescência. Mas o que acontece duas vezes, pode perfeitamente acontecer uma terceira. E uma quarta...
No 3o ano do 2o grau, tínhamos uns tradicionais churrascos depois dos famigerados simulados de vestibular, que aconteciam aos sábados. Pra aliviar a tensão. A maioria nem tinha carteira de motorista, mas numa cidade minúscula como a que eu morava, a situação passava batida.
Na volta de um destes churrascos, a roda do carro de um dos meninos caiu na valeta, o carro deu uma desgovernada, mas o motorista era bom (e maior de idade) e recuperou o controle. Se fosse eu ao volante, todos teríamos morrido, capotados alí. Mas a menina que estava no lado do carona entrou em pânico, abriu a porta e pulou com o carro em movimento. Traumatismo craniano aberto. Os meninos a socorreram e fomos pro hospital, que era do lado da minha casa. Entrei dentro de casa com os olhos mais arregalados da minha vida. "Pai, liga pro Fulano. A filha dele tava com a gente, sofreu um acidente de carro e não vai sobreviver".
Eu realmente acredito que só partimos quando cumprimos nossa missão na Terra. Quantas vezes já tive pacientes que tinham tudo para melhorar e incompreensivelmente morreram. Como também os que já dávamos como perdidos e que a vigília da família trouxe de volta.
Mas eu tinha 17 anos e a morte ainda era uma estranha. A turma entrou em luto. O vestibular já não parecia tão importante. Mas ainda mantínhamos nossa programação de irmos pro cursinho em novembro em Belo Horizonte.
O Motorista não mais dirigia, andava de bicicleta. Um dos poucos ainda mais magricela do que eu. Foi atropelado com bicicleta e tudo. Foi pro mesmo hospital ao lado da minha casa. Mas sobreviveu.
Fiquei me imaginando encontrando todo mundo do colégio nos dois cursinhos em BH para onde iríamos. Inevitavelmente seguiríamos o luto.
Mas era hora de mudança, de organizar o próximo passo na vida, de sair de casa.
Calculei quantas faltas eu podia ter no ano, tracei uma meta bem alta e fui embora antes das aulas acabarem. Não fiquei nem pra festa de encerramento do 3o ano. Fui pra Campinas em outubro. Sozinha. Minha meta alta era a Unicamp.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Montecchios e Capuletos

Seguindo o conselho da minha mãe, fui buscar "vida inteligente" fora do colégio. Alguns meninos surgiram, beijinho, beijinho, mas namoro que é bom, nada. Comecei a frequentar um grupo de jovens, desses tipo miniatura de Rotary, Lions, digamos, algo filantrópico, em prol de um bem maior. Decididamente não seria o meu perfil frequentar o grupo de jovens da Igreja, já que eu sequer era batizada. Então, fui pra esse aí. Meus pais eram de um também e ficaram socialmente felizes. Reclamavam das trocentas atividades que eu inventava, reclamavam de ter que buscar a Cinderela no "baile beneficente" que organizamos, mas enfim... Se pais de adolescente não reclamarem de alguma coisa, você não está passando direito pela adolescência. O conflito faz parte do crescimento.
Mas tinha um menino lindo no meu grupo! Romeo. A bem da verdade, eu ainda estava meio magoada com a história do Odorico (e talvez por isso não namorasse), mas esse era tão bonitinho...
E haja conta telefônica, até que um dia ele criou coragem e me chamou pro cinema. Com que dinheiro? Não era prática termos mesada lá em casa, tudo funcionava na base da conquista por pontos. Notas boas, podíamos pedir "presentes". Notas ruins, nada feito. Mas e o dinheiro pro cinema?
_ Mãe, me dá dinheiro, quero ir ao cinema hoje.
_ Mas minha filha, que filme tá passando?
_ Sei lá, mãe, o Romeo que convidou.
_ Oh, que gracinha! Peraí que vou pegar com o seu pai.
Estávamos no andar de baixo da casa. Mamãe grita: "Capuleto, me arruma um dinheiro aí que sua filha vai ao cinema com o namorado!"
_ Que namorado, mãe, calma!
E a voz de trovão vinda do andar de cima: "O que? Quem? Como assim?"
_ Calma, a gente conhece o garoto, é o Romeo.
_ Romeo, filho do Montecchio? Mas JUSTO ESSE??? Não dava pra ser outro?
Achei que meu pai fosse infartar. Ficou vermelho, pos a mão no coração, reclamou de palpitação, eu já queria levá-lo ao hospital, já estava esquecendo do cinema.
Mamãe se cansou do show: "Capuleto, para de drama, dá o dinheiro aí e não enche o saco. Sua filha não tem nada a ver com o que acontece na sua vida profissional".
Não entendi lhufas, peguei o dinheiro, me arrumei conforme o conceito adolescente de moda em vigor: calça jeans baggy (aaahhhh), blusa e muito creme no cabelo pra domar o "corte selvagem" dos anos 80. Algo que parecia um pompom do Cascão na frente e o resto do cabelo arrepiado para trás, até a altura dos ombros. Talvez uma comparação com o cabelo desfiado dos roqueiros da época seja mais fiel.
Enfim, lá fui eu, felizinha da Silva, pro cinema, encontrar com o Romeo. Aliás, não fomos ao cinema. Nem sei que filme estava passando mesmo. Os ingressos pra sessão das 7 já estavam esgotados e achamos que seria muita provocação, de cara, pegar a sessão das 9, sair do cinema as 11h da noite e chegar em casa meia-noite. Fomos dar a volta olímpica no centro comercial. E começamos a namorar.
Como é que eu ia saber que o meu pai tinha mandado embora justo o pai dele (aparentemente por justa causa, mas...) e eles não se suportavam desde então???
Eu nem gostava tanto dele assim, neste aspecto, fui uma péssima Julieta. Mas ele era muito bonito, seis meses mais novo e eu queria um troféu pra desfilar na escola. E também queria atormentar um pouco a vida do meu pai, afinal, eu era adolescente e os adolescentes tem que ser rebeldes...
Durou alguns meses. Embora estudássemos na mesma escola, eu estudava de manhã e ele à tarde. Como eu já estava prestes a encarar o vestibular, nos encontrávamos eventualmente na hora do almoço e aos finais de semana, somente.
Até o dia em que tive um evento escolar qualquer a tarde e não o encontrei de jeito nenhum na área do 2o grau.
Ele estava na 8a série! Já tinha sido reprovado 2 vezes! E como me conhecia melhor do que eu imaginava, não teve coragem de me contar, porque sabia que suas chances seriam zero...
Foi duro, porque o final de semana seguinte seria dia dos Namorados. Meu primeiro dia dos Namorados com namorado! Mas eu estava tão decepcionada... E meu aniversário era no fim do mês...
Enfim, terminei o namoro no sábado, o Dia dos Namorados era no domingo, ele foi lá em casa, fez uma "serenata" cantando só músicas melosas na varanda, berrando "desce, minha ruivinha" e eu chorando no quarto.
Meu pai amoleceu, foi lá fora, conversou com ele, subiu, conversou comigo: "Minha filha, o ursinho que ele trouxe é do meu tamanho, ainda tem um outro presente de aniversário, o que foi que ele fez? Se foi chifre, lustra que brilha!"
"Ele mentiu pra mim, papai. De caso pensado. E ele é burrinho, tá na oitava série! Na OITAVA!".
"Bem, a burrice é genética, o pai também é. Mas vai lá embaixo e conversa com ele, que não aguento mais essa breguice que ele tá cantando".
Desci. Com a cara inchada mesmo. Mantive minha posição anti-Julieta. mesmo porque eu gostava de rock e ele já estava apelando e cantando "Nuvem de Lágrimas", de Chitãozinho e Xororó! Não aceitei o ursinho. Mas o presente de aniversário, aceitei, vai. Uma camiseta da Bee que também frequentou minha caixa de recordações durante algum tempo.
E eu nunca fui ruiva. Meu cabelo era alaranjado queimado de sol. Mas realmente tenho alguns primos e primas ruivos de verdade.
No mês seguinte, Romeo começou a namorar minha prima ruiva, três anos mais nova que eu e na oitava série como ele. Até a minha irmã ficou a fim dele!
Mas o vestibular se aproximava, coisas ruins aconteceram com meus amigos na sequência e eu decididamente não suporto burrinhos...



O sistema de castas

Nesta época da minha vida, ainda morava em Minas, numa cidade planejada, construída ao redor de uma determinada empresa. 100% de saneamento básico (nesta época...), clubes em quase todos os bairros. Os bairros foram planejados conforme a função dentro da empresa: um bairro para os engenheiros assim, outro para os engenheiros assado, um para chefinhos, outro para chefes maiores e um poderoso, uma verdadeira "downtown" americana, para os chefões. E bairros um pouco mais afastados para técnicos, outros funcionários, comerciários,etc.
Pode ser extremamente eficiente do ponto de vista administrativo, arquitetônico, burocrático, sei lá. Pra mim, era um sistema de castas.
Logo que eu nasci, morávamos num bairro, a "Vila". Meus avós moravam no mesmo bairro, era um bairro pequeno, todo mundo se conhecia. Vovó costurava e como eu era miudinha, qualquer retalho virava uma roupa nova pra mim.
Mas meu pai se formou, virou um "engenheiro assado" e mudamos de bairro. Sem dúvida foi um upgrade de casa maravilhoso. Uma casa linda, de dois andares, jardins, quintal enorme, em constante reforma e melhoria. Foi nesta casa que morei até ir pra faculdade, é o meu conceito de lar.
Então, quando meu pai foi promovido a chefinho, não quis abandonar a casa e trocar de bairro novamente. Estávamos bem aonde estávamos. Talvez por isso ele nunca tenha sido promovido a chefão.
Decididamente, ninguém lá  de casa dava a mínima pro "sistema de castas", eu não tinha a menor noção de qual era a função dos pais dos meus amigos, conforme o bairro em que eles moravam. Pra mim importava se eram meus amigos ou não, se eram engraçados, confiáveis e divertidos.
E sempre achei que esta também fosse a posição dos meus pais.
Mas existem outras coisas envolvidas quando se vira "chefinho" e, um dia, meu pai teve que mandar alguns funcionários embora. Um deles era meu próprio tio, irmão da mamãe. Um outro era Montecchio.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Justiça poética

_ Mããããããããããããe, Odorico tá namorando a Juju!!!!!!!! Buááááá!!!!
_ Calma, minha filha, calma. Você tá magoada, calma. Vem cá, me dá um abraço. Isso, respira. Mais uma vez. Agora vem conversar direito. Você alguma vez falou pra ele que gostava dele?
_ Não, mamãe, mas...
_ Sem mas. Ele alguma vez falou que gostava de você?
_ Não, mamãe, mas...
_ Então, para e pensa um pouquinho. Bem ou mal, você tem a gente, você tem seus outros amigos todos. A Juju sofreu muito quando os pais se separaram, o Odorico também. Eles têm esse vazio em comum, são carentes disso e se completam, minha filha. Justiça poética. Você está sendo egoísta, e impaciente. Calma que sua hora vai chegar.
_ Mas mamãe (ainda soluçando)...
_ Escolhe um mais bonito, minha filha, e vai na fé, você vai ver que vai dar certo. Saia desse mundinho e você vai ver que existe vida inteligente além dos muros do seu colégio também...

Depois de algum tempo de total revolta, inclusive contra minha mãe (que não me compreendia!!), acabei fazendo o que ela tinha aconselhado.
Primeiro escrevi uma poesia, uma melosa declaração de amor, que saiu no jornalzinho da escola. Óbvio que era pra ter sido de autoria anônima, já que tinha destinatário, mas a professora resolveu por meu nome. Foi um inferno. Fiquei semanas sem sair da sala de aula na hora do recreio, com vergonha de encontrar as Cajazeiras. Alguns amigos em comum foram me repreender. A maioria dos outros amigos nem ligou.
Juju obviamente passava o recreio namorando Odorico.
Quando as provas chegaram, os amigos me obrigaram a sair da sala para a arquibancada, era hora de contar a História em histórias. Nem Juju nem Odorico participaram mais disso.
Alguma vez aqui eu falei que Odorico era nerd?
Este foi o ano em que ele foi reprovado na escola.
Eu não suporto burrinhos. Comecei a vê-lo com olhos desapaixonados. Meu músculo estúpido se libertou. Pouco tempo depois, comecei a namorar um menino lindo, que conheci fora do colégio. Para desespero do meu pai, que se achava o próprio Capuleto, pai de Julieta...

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Love of my life

No primeiro ano do segundo grau (ainda era assim!), separaram as Cajazeiras de turma. Eu fiquei na turma do menino em questão. Vamos chamá-lo Odorico, posto que objeto de desejo das Irmãs Cajazeira. Que por ordem de nascimento, são Dodô, Dudu e Juju. Sou Dudu.
Dodô, de longe, a mais bonita das três, mas a mais gordinha (mas isso devia ser poucos quilos, não havia grandes obesos até então). Eu, uma versão mirim da Elba Ramalho: magrela, cabelo arrepiado, pernas compridas, mas baixinha. Em vésperas de provas de História, me afastava de Dodô e Juju, sentava na arquibancada com a galera da turma e contava a matéria inteira como se fosse um romance. Juju, a caçula, a mais complexa.
Sempre me sentei no mesmo lugar na turma, mas um lugar diferente para cada turma. Nesta época, eu me sentava na fileira da parede. Odorico se sentou na minha frente e parecia ainda mais disperso do que eu. Cutuquei e perguntei o que era. Ele me passou uma folha de papel na qual estava tentando escrever a letra de "Love of my life", do Queen. Algumas estrofes em branco.
Sabe aquela arritmia básica? Achei que eu ia ter um troço, fiquei gelada igual a uma perereca.
Escrevi as estrofes que faltavam, devolvi a folha, sai pro recreio, mas nos desencontramos.
Na volta, ele não falou nada, nem eu achei que precisava.
Vivíamos grudados, cantarolávamos a música, mas nada de prático.
Aí um dia ele me contou que ia fazer intercâmbio nos EUA.
O abalo da notícia sobre as Cajazeiras foi visível até às professoras.
Convenci minha mãe a me autorizar a fazer um DDI! Discagem Direta Internacional, ligação caríssima no mundo pré-telefone celular, onde não havia a web. Recebi cartas e fotos, e o cartão postal prateado do Mickey eu ainda tinha na caixa de recordações até pouco tempo atrás.
Mas eu não soube que ele tinha voltado uma semana antes do início das aulas.
Ele tinha escolhido Juju.

As Cajazeiras

As irmãs Cajazeira são personagens clássicas de "O Bem Amado": Dorotéia, Dulcinéia e Judicéia. Assim éramos três amigas no colégio. Gostávamos basicamente das mesmas músicas, não gostávamos basicamente das mesmas coisas. Eramos muito certinhas pra falar palavrão em público, então criamos um idioma paralelo, um alfabeto em código no qual falávamos e escrevíamos as piores baixarias e só nós entendíamos mesmo. Passávamos bilhetes tenebrosos em plena sala de aula, e se algum curioso lia, era motivo de ainda mais risadas. Ninguém nunca quebrou nosso código. Éramos as cabeçudas da classe, as maiores notas, as cdf. Não competíamos entre nós (pelo menos, eu não, mesmo porque a Matemática nunca me permitiria ser a primeira). Mas gostávamos de coisas parecidas demais. Foi só uma questão de tempo a gostarmos do mesmo menino.
Que era a antítese do galã, aluno transferido, deslocado entre outros alunos que já se conheciam há anos. Foram as três nerds ajudá-lo. Deu no que deu.
Nenhuma das três nunca tocou formalmente no assunto uma com as outras. Levamos todas as coisas platonicamente por mais de um ano. Até que o menino escolheu uma...

A primeira palpitação

Um dia eu desmaiei no colégio. Acho que na oitava série. Chamaram meu pai, fui ao hospital, me reviraram do avesso. Acharam uma variação de batimento cardíaco de pouco mais de 0,12 segundos, relacionada com a respiração. Bem, isso tem nome: arritmia sinusal respiratória. Só não é propriamente doença. E nem é permanente. Também acharam uma escoliose (desvio de coluna). A culpada foi a mochila, pois éramos alunos-caramujo, carregávamos nosso mundo nas costas. Quando inventaram as mochilas de rodinhas, eu já estava no segundo grau e preferia a ameaça do colete ortopédico pra tratar a escoliose do que o mico de desfilar pelo colégio com a mochilete rosa da Barbie ou qualquer coisa assim.
Mas voltando ao chilique. Nunca mais eu desmaiei, nem quando devia.
Mas depois desse dia o mundo ficou diferente, e eu que sempre fui pragmática, mesmo criança, comecei a ver que havia mais que o preto e o branco. Havia nuances de cada cor.
Não demorou muito e veio a primeira paixonite de adolescente...

A Mulher Invisível

Sem roteador há 4 dias, a sala cheia de fios nos quais eu tropecei o dia inteiro perseguindo meu filho. Tossindo, com as bochechas vermelhas de febre. Chovendo e eu ainda tinha que ir trabalhar. O ex- (sim, existe um ex-marido nesta história) chegou, brincou um pouquinho com os brinquedos e livros que eu comprei pro filhote e foi embora com ele. Ele sabia que eu estava sem net, mas não perguntou se eu já tinha resolvido, se eu estava bem, se precisava de ajuda. Foram quase dez anos juntos. Que fossem dias. Eu estendo a mão a estranhos, quanto mais a conhecidos. Mas realmente eu não devia guardar tanta mágoa. Vai que eu tenho o poder da invisibilidade e não sei! Deve ser isso. Eu sou uma mulher invisível.
Melhor começar a escrever sobre o passado. O presente ainda está em construção.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O coração: um músculo estúpido

Obviamente esta é uma história romanceada. É o que eu vi, imaginei, a minha própria versão dos fatos, como eu senti e achei que os outros sentiam. Portanto, praticamente uma fábula. Não somos donos do nosso próprio coração, não dominamos nem o que sentimos, quanto mais o que os outros sentem.
Mas há uma explicação para isso... o coração é um músculo.
Músculo estriado cardíaco, a seu dispor. Ou não.
Como o músculo estriado esquelético (os músculos comuns) eles são estriadinhos de vermelho, se contraem às custas de filamentos de actina e miosina. Mas os músculos esqueléticos são totalmente voluntários. Meus músculos esqueléticos se contraem ao meu comando.
Já imaginou se pudéssemos ordenar ao coração: "pare de bater, seu estúpido, que eu estou na fossa?"
Não haveria a 2a idade, quanto mais a 3a, a população praticamente se extinguiria na adolescência.
Então, ele é involuntário como um músculo liso.
Mas músculos lisos podem dar cólica quando se contraem: cólicas intestinais, cólica menstrual, etc.
Já pensou se tivéssemos uma "cólica cardíaca" quando tomássemos um fora? Ou quando estivéssemos apaixonados? Então, o coração não pode ser um músculo liso.
O coração é um músculo estriado, mas involuntário como um músculo liso...
O que você esperava REALMENTE de um músculo que não sabe direito quem é nem o que faz????    
Esta é a história de um musculozinho estúpido como tantos outros no mundo...

A Pré-História

Criada em casa, correndo pelo quintal, jogando queimada na rua, eventualmente jogando queimada com mamonas tiradas do pé (dói uma boa quantidade quando acerta...).
Férias: a encarnação da música do Ultraje a Rigor, "Nós vamos invadir sua praia". De carro de Minas até as praias do Espírito Santo, depois no fusquinha amarelo do avô, invadindo a praia, farofa total. Anos  80. Eu era bem feliz.
Escolas particulares, pai trabalhando, mãe em casa, mas não exatamente uma "tradicional" família mineira. Optaram por não me batizar: "a escolha deve ser sua".
Ensinaram-me autoconfiança, pois eles acreditaram - e acreditam - em mim.
Cumpriram a tarefa mais difícil que os pais tem que cumprir: soltar os que amam ao mundo, confiando que a criação que deram será o bastante. Tem que ser.
E não que tenha sido um período sem atribulações: mamãe com câncer quando minha irmã nasceu, doenças de outras pessoas na família, mas tudo superado porque eu me sentia extremamente amada e confiante de que tudo sempre ia dar certo. Meus pais são vivos, saudáveis e bem espertinhos.
Na minha cabeça, deu certo. Na da minha irmã, não.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Início

Tem muito tempo que eu não escrevo. Da última vez que escrevi, ainda foi num diário de papel. Não que eu tenha parado de sentir, apenas a vida corria, a faculdade consumia e tantas outras coisas pareciam tão mais reais (e materiais) do que eu sentia, que parei.
As "outras coisas" ainda estão aqui, algumas absolutamente maravilhosas na minha vida: a faculdade acabou, o tempo passou, o doutorado está no fim, até posso dizer que profissionalmente estou superbem. Tenho o filho mais lindo que eu podia querer. Mas o equilíbrio não está aqui.
E como o coração se sente perdido como eu me lembro de estar na adolescência, talvez seja a hora de voltar a escrever.
Mas é preciso proteger os que estão ao meu redor, então acabei escolhendo outro nome: Diana. Ou Ártemis. A irmã de Apolo, guerreira, caçadora, protetora das cidades, das mulheres. O nome da Mulher-Maravilha. Quem eu gostaria de ser.
Porque meu nome também significa uma lenda grega. Porque eu estou seguindo esta lenda e acaba em tragédia. Então, quero ser Diana.
E que o equilíbrio venha.

Inicio de ano

Inicio de Ano. Resoluções de Amor. Iniciando pelo amor-próprio, sem ele eu não posso te amar. Também o teu amor-próprio, sem ele você não po...