Quando eu ainda morava em Minas, minha mãe capotou o carro comigo, indo me levar para fazer exame. Detalhe, Rx para ver a coluna (controle da escoliose), eu tinha tomado uns 4 comprimidos de Lactopurga, para que houvesse um "esvaziamento intestinal para melhor visualização da coluna lombossacra". Não adiantou nada. O medo foi tamanho, que não passou nem um pum, quanto mais um esvaziamento completo...
Mas acidentes acontecem. O que acontece uma vez pode nunca mais acontecer de novo. Acho que li isso num Paulo Coelho da adolescência. Mas o que acontece duas vezes, pode perfeitamente acontecer uma terceira. E uma quarta...
No 3o ano do 2o grau, tínhamos uns tradicionais churrascos depois dos famigerados simulados de vestibular, que aconteciam aos sábados. Pra aliviar a tensão. A maioria nem tinha carteira de motorista, mas numa cidade minúscula como a que eu morava, a situação passava batida.
Na volta de um destes churrascos, a roda do carro de um dos meninos caiu na valeta, o carro deu uma desgovernada, mas o motorista era bom (e maior de idade) e recuperou o controle. Se fosse eu ao volante, todos teríamos morrido, capotados alí. Mas a menina que estava no lado do carona entrou em pânico, abriu a porta e pulou com o carro em movimento. Traumatismo craniano aberto. Os meninos a socorreram e fomos pro hospital, que era do lado da minha casa. Entrei dentro de casa com os olhos mais arregalados da minha vida. "Pai, liga pro Fulano. A filha dele tava com a gente, sofreu um acidente de carro e não vai sobreviver".
Eu realmente acredito que só partimos quando cumprimos nossa missão na Terra. Quantas vezes já tive pacientes que tinham tudo para melhorar e incompreensivelmente morreram. Como também os que já dávamos como perdidos e que a vigília da família trouxe de volta.
Mas eu tinha 17 anos e a morte ainda era uma estranha. A turma entrou em luto. O vestibular já não parecia tão importante. Mas ainda mantínhamos nossa programação de irmos pro cursinho em novembro em Belo Horizonte.
O Motorista não mais dirigia, andava de bicicleta. Um dos poucos ainda mais magricela do que eu. Foi atropelado com bicicleta e tudo. Foi pro mesmo hospital ao lado da minha casa. Mas sobreviveu.
Fiquei me imaginando encontrando todo mundo do colégio nos dois cursinhos em BH para onde iríamos. Inevitavelmente seguiríamos o luto.
Mas era hora de mudança, de organizar o próximo passo na vida, de sair de casa.
Calculei quantas faltas eu podia ter no ano, tracei uma meta bem alta e fui embora antes das aulas acabarem. Não fiquei nem pra festa de encerramento do 3o ano. Fui pra Campinas em outubro. Sozinha. Minha meta alta era a Unicamp.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
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