No primeiro ano do segundo grau (ainda era assim!), separaram as Cajazeiras de turma. Eu fiquei na turma do menino em questão. Vamos chamá-lo Odorico, posto que objeto de desejo das Irmãs Cajazeira. Que por ordem de nascimento, são Dodô, Dudu e Juju. Sou Dudu.
Dodô, de longe, a mais bonita das três, mas a mais gordinha (mas isso devia ser poucos quilos, não havia grandes obesos até então). Eu, uma versão mirim da Elba Ramalho: magrela, cabelo arrepiado, pernas compridas, mas baixinha. Em vésperas de provas de História, me afastava de Dodô e Juju, sentava na arquibancada com a galera da turma e contava a matéria inteira como se fosse um romance. Juju, a caçula, a mais complexa.
Sempre me sentei no mesmo lugar na turma, mas um lugar diferente para cada turma. Nesta época, eu me sentava na fileira da parede. Odorico se sentou na minha frente e parecia ainda mais disperso do que eu. Cutuquei e perguntei o que era. Ele me passou uma folha de papel na qual estava tentando escrever a letra de "Love of my life", do Queen. Algumas estrofes em branco.
Sabe aquela arritmia básica? Achei que eu ia ter um troço, fiquei gelada igual a uma perereca.
Escrevi as estrofes que faltavam, devolvi a folha, sai pro recreio, mas nos desencontramos.
Na volta, ele não falou nada, nem eu achei que precisava.
Vivíamos grudados, cantarolávamos a música, mas nada de prático.
Aí um dia ele me contou que ia fazer intercâmbio nos EUA.
O abalo da notícia sobre as Cajazeiras foi visível até às professoras.
Convenci minha mãe a me autorizar a fazer um DDI! Discagem Direta Internacional, ligação caríssima no mundo pré-telefone celular, onde não havia a web. Recebi cartas e fotos, e o cartão postal prateado do Mickey eu ainda tinha na caixa de recordações até pouco tempo atrás.
Mas eu não soube que ele tinha voltado uma semana antes do início das aulas.
Ele tinha escolhido Juju.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
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