Pense numa época sem celular, sem internet e muito menos, celular com internet.
Eu obviamente sabia que meus pais iriam se mudar. Meu pai tinha se aposentado, nas férias do meio do ano tínhamos ido pra praia escolher o apartamento, já tinham rolado várias piadinhas: "e aí, com ou sem quarto pra Diana? Sem, ela vai abandonar a gente, vai pra faculdade, hahaha"...
Parecia que eu estava metaforicamente abandonando todos na terra prestes a ser inundada e fugindo na Arca de Noé. Vai ver foi por isso que o inverso doeu tanto.
Eu nunca cheguei a empacotar as minhas coisas. Meu quarto de adolescente verde, que eu odeio rosa. Meus poucos CDs e muitos LPs. Meu LP preferido, New Jersey, do Bon Jovi!
Quando eu saí de Juiz de Fora, não consegui falar com meus pais pra confirmar. O que era comum, ninguem ficava muito em casa, com o calor que fazia, estavam na piscina ou no clube, com certeza. Mas tudo já tinha sido metodicamente combinado entre o engenheiro e a filha do engenheiro.
Então peguei o busão em Juiz de Fora e fui pra casa. Cheguei de manhã na rodoviária e achei estranhíssimo meu pai não estar lá me esperando, mas o ônibus tinha chegado adiantado (e olha que nem era o Cometão...). Achei melhor ir pra casa.
Tão quieta a minha casa. Ninguém atendeu a campainha. Eu já estava muito velha para me pendurar no pinheiro e entrar pela janela do meu quarto, no segundo andar, como fazia quando era criança. Fiquei olhando, apertando histericamente a campainha, até cansar e sentar no meio-fio da rua.
É claro que eu sabia que eles não estavam ali. Eu só não conseguia acreditar que tinha sido largada para trás. Eram os meus pais, a minha família, o meu lar. Eu estava literalmente na sarjeta, sentada nela, chorando, chorando, chorando, chorando, deixando passar todo o sofrimento do último ano.
O vizinho me encontrou lá pelas 9 da manhã. Eu tinha chegado antes das seis. O caminhão de mudanças tinha aparecido tres dias antes do combinado e a mudança tinha saído na véspera. Meu pai tinha deixado uma muda de roupa, dinheiro e a passagem pra praia.
Pra melhorar, no apartamento novo, eu não tinha quarto. Levei uma semana pra voltar a falar com meus pais. Quando falei, eles descobriram que eu sabia xingar...
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
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