quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Fora da redoma

Só em novela que a heroína tem um arroubo de coragem, uma imensa vontade de mudar o mundo e dá tudo certo. Comigo deu tudo errado.
Primeiro, eu não tinha dezoito anos. Embarcar na rodoviária da minha cidade pra Belzonte foi fácil. Mas pegar o busão interestadual de Belzonte para Campinas, sem autorização dos pais, eram outros quinhentos... Eu tinha umas seis horas para dar um jeito...
Meu pai tinha se fingido de morto com toda a minha movimentação de ir pra Campinas e "casualmente" estava viajando a trabalho no final de semana da minha partida. Não tinha telefone celular naquela época (um viva à coleira eletrônica moderna!). Minha mãe ficou em casa com minha irmã e eu fui...
Em algum momento, não sei exatamente quantas horas eu fiquei sentada num degrauzinho perto do embarque da "Cometa", meu pai apareceu. Puto. Puto. Comprou a passagem dele e entrou comigo no onibus.
_Voce vai morar aonde?
_Não sei...
_ Vai gastar quanto?
_ Não sei...
_ Vai se sustentar como?
Aí, com meu sorriso mais dentuço, mostrei o cartão de crédito da mamãe...
Escapei do sermão por intermédio de Morfeu. Eu estava tão cansada que dormi no Cometão e acordei em Campinas.

Chegar ao Anglo foi um choque. Cabeçuda, eu? Ali havia centenas, centenas, de pessoas tão ou mais cdf do que eu. A bem da verdade, vamos mandar a modéstia às favas: eu não sou cdf. Eu não tenho persistência pra isso. Senão, agora mesmo, estaria terminando de escrever a tese de doutorado... Eu tenho uma puta memória, que na época estava no auge. Agora já tá dando ferrugem, mas ainda assim, dá pro gasto. E minha memória, contra centenas de pessoas com uma memória tão boa quanto e esforçados, não ia prestar mesmo.
Dois anjinhos apareceram na minha vida, antes que eu me suicidasse de decepção com o mundo fora da redoma de vidro: Angela e Angelo.
Angela era a menina que dividia o quarto comigo na pensão. Quase tão louca quanto eu. talvez mais... Um pouco mais velha, tinha começado a faculdade de Medicina no Nordeste, tinha trancado pra fazer cursinho e tentar a Unicamp. Superesforçada. Me ensinou o valor do esforço (só de olhá-la estudando eu já me cansava).
Angelo era um dos meninos da minha turma de cursinho. Também um pouco mais velho. Já trabalhava, nem lembro mais no que. Sempre chegava com fome no cursinho e às vezes íamos juntos pra cantina. Eu sempre morrendo de frio e ranhetando quando tinha neblina. Algumas semanas depois, ele já queria me apresentar pra mãe dele em Valinhos! E nenhum dos dois estudava quanto devia...
Mas um dia a mãe dele me ligou, disse que sentia muito, mas que era para eu estudar por nós dois. Na época, eu não entendi, achei que ela estava proibindo o namoro. Ela só me contou depois do vestibular.
Eu nunca cheguei a conhecer a mãe do Angelo. Numa noite de neblina, ele saiu de carro do cursinho e nunca chegou a Valinhos.
Eu não gosto de neblina.

Um comentário:

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