segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Montecchios e Capuletos

Seguindo o conselho da minha mãe, fui buscar "vida inteligente" fora do colégio. Alguns meninos surgiram, beijinho, beijinho, mas namoro que é bom, nada. Comecei a frequentar um grupo de jovens, desses tipo miniatura de Rotary, Lions, digamos, algo filantrópico, em prol de um bem maior. Decididamente não seria o meu perfil frequentar o grupo de jovens da Igreja, já que eu sequer era batizada. Então, fui pra esse aí. Meus pais eram de um também e ficaram socialmente felizes. Reclamavam das trocentas atividades que eu inventava, reclamavam de ter que buscar a Cinderela no "baile beneficente" que organizamos, mas enfim... Se pais de adolescente não reclamarem de alguma coisa, você não está passando direito pela adolescência. O conflito faz parte do crescimento.
Mas tinha um menino lindo no meu grupo! Romeo. A bem da verdade, eu ainda estava meio magoada com a história do Odorico (e talvez por isso não namorasse), mas esse era tão bonitinho...
E haja conta telefônica, até que um dia ele criou coragem e me chamou pro cinema. Com que dinheiro? Não era prática termos mesada lá em casa, tudo funcionava na base da conquista por pontos. Notas boas, podíamos pedir "presentes". Notas ruins, nada feito. Mas e o dinheiro pro cinema?
_ Mãe, me dá dinheiro, quero ir ao cinema hoje.
_ Mas minha filha, que filme tá passando?
_ Sei lá, mãe, o Romeo que convidou.
_ Oh, que gracinha! Peraí que vou pegar com o seu pai.
Estávamos no andar de baixo da casa. Mamãe grita: "Capuleto, me arruma um dinheiro aí que sua filha vai ao cinema com o namorado!"
_ Que namorado, mãe, calma!
E a voz de trovão vinda do andar de cima: "O que? Quem? Como assim?"
_ Calma, a gente conhece o garoto, é o Romeo.
_ Romeo, filho do Montecchio? Mas JUSTO ESSE??? Não dava pra ser outro?
Achei que meu pai fosse infartar. Ficou vermelho, pos a mão no coração, reclamou de palpitação, eu já queria levá-lo ao hospital, já estava esquecendo do cinema.
Mamãe se cansou do show: "Capuleto, para de drama, dá o dinheiro aí e não enche o saco. Sua filha não tem nada a ver com o que acontece na sua vida profissional".
Não entendi lhufas, peguei o dinheiro, me arrumei conforme o conceito adolescente de moda em vigor: calça jeans baggy (aaahhhh), blusa e muito creme no cabelo pra domar o "corte selvagem" dos anos 80. Algo que parecia um pompom do Cascão na frente e o resto do cabelo arrepiado para trás, até a altura dos ombros. Talvez uma comparação com o cabelo desfiado dos roqueiros da época seja mais fiel.
Enfim, lá fui eu, felizinha da Silva, pro cinema, encontrar com o Romeo. Aliás, não fomos ao cinema. Nem sei que filme estava passando mesmo. Os ingressos pra sessão das 7 já estavam esgotados e achamos que seria muita provocação, de cara, pegar a sessão das 9, sair do cinema as 11h da noite e chegar em casa meia-noite. Fomos dar a volta olímpica no centro comercial. E começamos a namorar.
Como é que eu ia saber que o meu pai tinha mandado embora justo o pai dele (aparentemente por justa causa, mas...) e eles não se suportavam desde então???
Eu nem gostava tanto dele assim, neste aspecto, fui uma péssima Julieta. Mas ele era muito bonito, seis meses mais novo e eu queria um troféu pra desfilar na escola. E também queria atormentar um pouco a vida do meu pai, afinal, eu era adolescente e os adolescentes tem que ser rebeldes...
Durou alguns meses. Embora estudássemos na mesma escola, eu estudava de manhã e ele à tarde. Como eu já estava prestes a encarar o vestibular, nos encontrávamos eventualmente na hora do almoço e aos finais de semana, somente.
Até o dia em que tive um evento escolar qualquer a tarde e não o encontrei de jeito nenhum na área do 2o grau.
Ele estava na 8a série! Já tinha sido reprovado 2 vezes! E como me conhecia melhor do que eu imaginava, não teve coragem de me contar, porque sabia que suas chances seriam zero...
Foi duro, porque o final de semana seguinte seria dia dos Namorados. Meu primeiro dia dos Namorados com namorado! Mas eu estava tão decepcionada... E meu aniversário era no fim do mês...
Enfim, terminei o namoro no sábado, o Dia dos Namorados era no domingo, ele foi lá em casa, fez uma "serenata" cantando só músicas melosas na varanda, berrando "desce, minha ruivinha" e eu chorando no quarto.
Meu pai amoleceu, foi lá fora, conversou com ele, subiu, conversou comigo: "Minha filha, o ursinho que ele trouxe é do meu tamanho, ainda tem um outro presente de aniversário, o que foi que ele fez? Se foi chifre, lustra que brilha!"
"Ele mentiu pra mim, papai. De caso pensado. E ele é burrinho, tá na oitava série! Na OITAVA!".
"Bem, a burrice é genética, o pai também é. Mas vai lá embaixo e conversa com ele, que não aguento mais essa breguice que ele tá cantando".
Desci. Com a cara inchada mesmo. Mantive minha posição anti-Julieta. mesmo porque eu gostava de rock e ele já estava apelando e cantando "Nuvem de Lágrimas", de Chitãozinho e Xororó! Não aceitei o ursinho. Mas o presente de aniversário, aceitei, vai. Uma camiseta da Bee que também frequentou minha caixa de recordações durante algum tempo.
E eu nunca fui ruiva. Meu cabelo era alaranjado queimado de sol. Mas realmente tenho alguns primos e primas ruivos de verdade.
No mês seguinte, Romeo começou a namorar minha prima ruiva, três anos mais nova que eu e na oitava série como ele. Até a minha irmã ficou a fim dele!
Mas o vestibular se aproximava, coisas ruins aconteceram com meus amigos na sequência e eu decididamente não suporto burrinhos...



Um comentário:

  1. Então tá, eu te ailoviu, mas cabelinho de pompom do Cascão não cola! Era cabelo de poodle mesmo! Eu tinha um também, e na verdade, era uma versão do corte Chitãozinho e Xororó pra quem tinha cabelo toinhoinhóin... Praticamente um corte Zezé di Camargo! Agora, vamos combinar, a pérola do seu pai de lustrar o chifre me fez cuspir a seriguela que eu tava chupando(é, eu comprei um monte!). Adorei!!! Pra mim, está sendo uma fotonovela in my mind,kkkk

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