Cada um de nós responde a um estímulo doloroso de acordo com nossas experiências prévias, geralmente da infância. Comparamos a dor atual com um processo qualquer guardado na memória e a classificamos como dor leve, mais ou menos, tá doendo muito ou puta que pariu, que dor é essa!
As vezes ter uma memória de elefante atrapalha um pouco a vida. Esta é uma memória que eu trabalhei bastante pra bloquear, mas que sempre assombra a minha vida.
Tudo bem, eu não estava lá muito sóbria. Era final do semestre, atrasado por causa das infinitas greves. Estávamos voltando do show de uma banda baiana qualquer: Cheiro de Amor, Banda Eva, Banda Beijo, qualquer coisa assim. Passei em casa, tomei banho, mais ou menos tomei café e subi pro campus pra ver se eu estava de prova final (a recuperação da faculdade). Nesta época, eu já tinha explicado aos meus pais que "time bom vai pra final". Eu não era uma aluna aplicada, não fazia jus ao "cu-de-ferro" dos cdf, porque era impossível eu ficar sentada na cadeira muitas horas, estudando. Ainda é. Então, virava e mexia, estava eu de prova final.
Estávamos em muitos, não me lembro exatamente em quantos, atravessando do ICHL para a biblioteca, para pegar o busão do outro lado da rua. Eu já estava quase na calçada. O carro cortou o onibus e ia fazer um strike nos que ainda estavam atravessando, então desviou pra cima da calçada. Eu alí. Só eu. Com um pezinho levantado pra por na calçada e ainda em torpor alcoólico para ter reflexo pra pular.
Eu já tinha quebrado a perna quando criança. Mas nada, nada, serviu de referência para aquela dor. Quebrei a clavícula e o quadril no impacto com o carro, me senti rolando no ar e cai com o queixo no meio-fio. Fratura exposta. Mas eu não desmaiei. Aquela dor enorme, em ondas, todo aquele sangue quente escorrendo pela boca, pelo pescoço, eu não entendia o que tinha acontecido direito. Talquinho, um dos meninos da minha turma, colocou alguma coisa na minha boca: "segura, mas não engole. Nós vamos te tirar daqui e vai ficar tudo bem". Tirou a camisa branca, enrolou ao redor do meu pescoço e me colocaram dentro do carro.
O campus é longe da cidade. A cada solavanco, eu apagava, acordava, perguntava: "Talquinho, o que foi que aconteceu?" E desmaiava sufocada no próprio sangue antes de conseguir ouvir a resposta. Depois de algumas vezes, ele me olhava chorando e só pedia para eu parar de falar.
Paramos num PS da prefeitura antes de chegar ao hospital. A camisa no meu pescoço estava preta, encharcada de sangue. Acho que tomei alguns pontos, três acessos periféricos e muito soro e dali até a Santa Casa já era pertinho.
As meninas que moravam comigo já estavam na porta da Santa Casa, a equipe do Trauma, da Bucomaxilo, todo mundo me esperando.
Eu ainda soltei uma última pérola: olha, não mexo o braço, fiz lesão de plexo braquial! Igual no livro!
Depois me deram alguma coisa bem gostosa e quentinha, um soninho tão bom, tão bom, uma moleza, depois ficou frio. Eu não quero morrer. Acorda, acorda, respira, ainda tem muita coisa pra acontecer na vida. Abri os olhos. Alguém conversava comigo. O anestesista. Olha, não tem como te intubar por causa da fratura, só abre a boca só um pouquinho e me dá esse ossinho que seus amigos guardaram aí. Eles foram ótimos. Agora vai dar tudo certo. Sou eu que vou te por pra dormir, mas quando você acordar, você vai ter uma traqueo, tá?
Traqueo? Traqueo? O que será uma traqueo? Sou caloura, não aprendi isso ainda. Mas aí eu só pensava, já não falava mais nada. O frio era muito ruim e eu não queria morrer.
Acordei na manhã seguinte, com a minha mãe chorando na minha frente. Eu estava viva. Nada mais importava. Nada mais ia doer tanto.
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Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirTô daqui acompanhando tudo como num filme, bebendo tudo o que leio, e entendendo a história assim, cronologicamente. A parte séria do que tenho pra dizer é que estou feliz de saber que esse exercício de escrita ajuda (e muito) a exorcisar(é com "S"?) as bruxas da alma, a enxergar com clareza e a digerir sentimentos tão complexos que não podiam ser absorvidos... Cada vez mais admirando você, e acreditando que você precisava dessa catarse pra zerar e tocar a vida... Sei que ainda tem muito guardado aí, e , sabendo que agora o espaço é restrito a poucos, mais ainda estou com você, pro que der e vier, pra ouvir/ler sem julgar ou interpretar, apenas ficando perto e oferecendo meu colo.
ResponderExcluirA parte engraçada é que depois de tanto bater a cabeça, seja em linguagem figurada ou no meio fio, só podia ser sequelada mesmo! Ôpa, foi mal!kkkkkkkk
Um dos dias mais difíceis que já vivi...
ResponderExcluirTa tudo bem, Cinderela, eu to aqui! E melhorei bastante depois de tanta cirurgia plastica! Mas eu tambem nao queria estar no seu lugar e ver o atropelamento acontecer..
ExcluirO mais difícil nem foi ver, foi ligar pra tia! Ser responsável por você até ela chegar, tomar todas as providências, isso quando eu num tinha idade nem pra cuidar de mim...
ExcluirAinda bem que Deus nos amou primeiro sempre e cuidou de nós o tempo todo!